terça-feira, 29 de setembro de 2015

Figuras quixotescas condenadas à errância eterna

             

Primeiro pensamos que escrever seria o exercício responsável por nossa salvação, que nossos escritos teriam um destino melhor do que o estômago das traças.

Vejo agora que fomos felizes. Imagens, de indescritível beleza, me vêm fácil, outras são turvas e outras dolorosas.

Vejo nossas mochila imundas, nossos surrados pares de botas, impróprias para o trópico – usados até mesmo no verão –, vejo as nuvens de poeira das estradas que atravessávamos, nossa garrafa térmica rachada, nossa vitrola e muitos, muitos objetos encadernados.

Nossos olhos voltavam-se para o real sob a blindagem que se fez necessária após anos gastos em bibliotecas. A literatura era a janela na qual nos acotovelávamos para ver o mundo.

Nós, que andávamos com versos engatilhados contra qualquer silêncio, levávamos conosco toda corja, as histórias que nos foram contadas numa irreversível simbiose com as nossas próprias.

Andávamos pelas ruas soltando fumaça, feito duas locomotivas, pensávamos que, assim como Kerouac e Ginsberg, por dentro de nossas carcaças sujas de fuligem, éramos belíssimos girassóis.

Éramos, na verdade, figuras quixotescas condenadas à errância eterna.

Ele costumava rir da minha incapacidade de vibrar a língua nos erres, o que conferia a meu espanhol um tom de comicidade. Já eu, ria porque inacreditavelmente bom tê-lo ao alcance das mãos.

Posteriormente, jogamos fora nossas cadernetas e concordamos que melhor seria: viver primeiro, escrever depois. Arquitetamos, no ar, castelos de urgências.

Desenvolvemos a perigosa mania de recusar o que nos era imposto, o que nos rendeu um desagradável vislumbre da – assustadora – extensão da crueldade, mas que, por outro lado, despertou em nós uma coragem de sono pesado, que nunca acorda em vão. Foi quando ganhamos o tal sonho.

O sonho nos fez insolentes, nos feriu, tingiu com sangue nossas roupas e nos fez desacreditar no abismo para o qual caminhávamos.

(Tempos depois, quando pensamos que já era o sonho um reles amontoado de ossos, ele nos reencontrou, intacto, sorrindo um riso que nos dizia: estive aqui o tempo. O que nos irritou profundamente.)

Numa distração da sorte, o levaram. Julgaram-no uma ameaça para o continente e o proibiram de voltar.

Com sua partida, aprendi que as estradas são do tamanho da falta que alguém faz a outrem e, por isso, entre nós foi posto todo um oceano.

Depois de sua partida, a cidade zombou de mim com todos seus vidros refletindo, incessantemente, seu rosto, os travesseiros fabricaram, repetidamente, o mesmo sonho, o seu chegar.

Com sua partida, descobri que o amor nos rouba as pernas e, vai ver por isso, mudei de nome, me livrei dos cabelos e – com documentos falsos – vim parar aqui, onde nos reencontramos.

Com o Mediterrâneo a nos molhar os pés, quase nos esquecíamos que estávamos aqui catapultados. A desolação do nosso continente de origem e nossos, numerosos, fantasmas se insinuavam em certas noites.

Voltar é uma alternativa nem sempre possível, mas irresistível, era o que eu pensava. Roberto achava que estávamos bem arranjados sendo a pátria um do outro.

O que não durou muito. Ele adoeceu. Fomos informados que seu fígado estava prestes a encerrar as atividades.

Nos dedicamos então ao desperdício de palavras, a releitura de seus livros favoritos, aos saraus itinerantes e aos banhos de mar.

A fugitiva da caixa de Pandora continuou a nos rondar os calcanhares, mas indiferente aos incontáveis “fica”, balbuciados até a cacofonia em intermináveis vigílias, ele me deixou.

Se me distraio, logo me pego pensando o que ele diria, que par de calças vestiria, quais versos de Parra citaria, onde esqueceria os óculos, que croissant elegeria o melhor da cidade.

Nunca pude perdoá-lo por ter transformado minhas pernas num constante desmoronamento. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Desalento

                Por trás da incapacidade de te olhar nos olhos, há a impressão de que, nessa idade, você sabe como é,  que sofremos pensando – erraticamente – já estarmos calejados e muito entendidos da vida. Acho que isso é algo que você me diria caso decidíssemos dividir uma mesa e algumas doses de qualquer coisa. Você também diria algo mais, algo que amenizaria a situação e que, por ser jovem, não chego a supor.
                Uma mesa seria só mais um componente da barricada intransponível, que não trouxe como brinde a resignação, erguida entre nós.
                Meu amor por você faz banquetes de sua impossibilidade e os devora. Meu amor, silencioso e angustiado, espera. Tenta te achar em outros, te busca onde você não está. Meu amor não sabe o que dizer. Meu amor acha tudo uma grande baboseira, perde a paciência e segue sonâmbulo. Alguns dias são mais difíceis do que outros. Meu amor é irremediável, não sabe dançar nem nadar. Meu amor só quer descansar. Meu amor se envergonha de te soar assim tão inútil. Meu amor gostaria de te fazer ao menos cócegas. Se ele ao menos soubesse doer em paz, mas vivemos estropiados pela guerra diária que travamos.
                Isso não é um convite tampouco um motivo à ultrapassagem. Isso não passa de uma constatação.
                Os dias insistem na repetição de algo que, apesar de não poder viver, não morre. Ao invés disso, escapa, cospe nas palavras, desliza em fios elétricos.
                Numa mesa, eu gostaria de te ouvir falando sobre a primeira vez que precisou substituir o para sempre por um paraquedas.  Gostaria de te ouvir dizendo que  Bonham e Art Blakey são bem melhores do que o batuque que você escuta quando encosta o ouvido no meu peito, que the man that got away na voz de qualquer uma que não seja a Judy Garland é imperdoável, que eu não passo de uma merdinha melancólica – o que é ainda pior do que ser só uma merdinha, resignada com sua sina – que compro discursos vazios e, inutilmente, os encho de esperança, que me falta coragem, que eu ainda não vi nada.
                Numa mesa, eu gostaria de te ouvir. Notar a cautela com a qual você evitaria escancarar feridas, o zelo com o qual me aconselharia sabendo, no fundo, que nada nos serve de vacina e que, nisso, reside toda graça.

                Quem olha para mim, sabe que você existe e eu agradeço – e lamento – todos os dias por isso.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

beatniks de pijama

eu não ligo
de dormir em lençóis sujos
nem de perder tudo
nas mudanças

minha casa é você
de colchão em colchão
te levo comigo

flertamos com vira latas
rimos dos discursos vazios
bebemos em dias impróprios

lemos e escrevemos
e confiamos a todos
esses escritos
nossa sobrevivência

nossas viagens
realizadas e sonhadas
a perversa juventude
de nossos corações

esses escritos
nos servem de sombrinha
na travessia
da corda bamba
dos dias

às vezes nos perdemos
mas inesperada
e estranhamente

algo em nós cintila e
no escuro
e nas multidões
nos reconhecemos

engendramos longas caminhadas
sacudimos nossos bolsos
vazios
como bandeiras

estamos espalhados
por toda cidade

as vitrines nos refletem
mesmo em nossas ausências

perdemos chaves
portas tramam contra
nossos narizes

pedacinhos de nós
caem feito chuva


aos rodopios
seguimos
em nossa dança
inventada.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Irredimíveis eternidades

para Sillas Coelho


Há quem diga ser impossível saber o momento exato do descarrilamento dos trens por trás dos olhos, o momento que devora os dentes e bombardeia cidades inteiras. O que dizem é que, invariavelmente, só nos damos conta quando a lama nos roça o queixo.  O fato é que, naquela época, ele namorava Pietro, que entendia o xadrez de suas camisas como um estado de prontidão para os piqueniques, errava a idade de sua mãe de propósito e dizia amar o gosto de fita – de – máquina – de escrever de seus beijos. Nossas idades somadas não davam meio século e nossa fome nos deixou ali, numa mesinha encardida. Eu queria só um milkshake e ele uma dessas coisas que não se vive para ver o resultado. Foi quando, debaixo daquele paletó, que certamente já vira dias melhores, vi seu pijama, o que inaugurou em meu peito um jóquei, onde apenas um cavalo seguiu desembestado após o disparo. Foi quase como olhar para uma lâmpada e piscar. A diferença é que uma hora a lâmpada some, mas seu rosto permanece em minhas pálpebras, não importa o quanto eu pisque.
 Era, muito provavelmente, a criatura mais descabelada da face da terra. Achava que se o vento tinha mais tempo e disposição para lidar com seu cabelo, era melhor não interferir. Sua involuntária coleção de pelos de cobertores alheios, abrigados ali, foi o que, por algum tempo, me ajudou a saber por onde ele andava. Estava disposto a amá-lo em silêncio, ainda que um silêncio povoado por alvoroços.  A ser mesmo o conhecido de quem ele ocasionalmente tomava emprestado o black and decker para passar camisas com o intuito de causar boa impressão nas entrevistas de emprego. A desordem de seu cabelo só não era maior que a do meu coração quando ele estava por perto.  Atrapalhava-me tanto, parvo, gago e desastrado, que ficou obvio meu afeto.
Aconteceu que, dentre todos de quem roubara o inquilino da caixa torácica num simples gesto de sorrir, escolhera a mim, que até então duvidava que a felicidade pudesse assumir tamanhas proporções.
No começo fizemos todas aquelas coisas, burlamos estudos e empregos para visitar xamãs em tribos, concordamos serem desnecessários os livros de filosofia ante os discos de jazz, imitamos Johnny & June em karaoquês, amaciamos carpetes dançando Slim Gaillard, engambelamos guardas de trânsito –   que nunca entenderam nossa pressa. Nos sentíamos domadores do tempo desbravadores do mundo, transformado em palco para nossa história.
Sabíamos, com assustadora exatidão, as origens de nossas cicatrizes, a quantidade de açúcar que preferíamos no chá, as lembranças que evitávamos, como nos ferir, como nos tocar, o que havia por trás de uma mão no queixo ou de uma testa, que se franzia por um elenco de motivos conhecidos.  Mapeamos nossos corpos e sinais, nos conhecíamos pelo avesso, o que por vezes era bastante incomodo.
A inspiração era tamanha que as galerias abriram as portas para minhas telas, seus filmes foram premiados em festivais semidesconhecidos, em diversas localidades do mundo, e no tempo, que quase não sobrava, passamos a dividir um teto.
Quando o mundo o aborrecia – e era ainda capaz de fazê-lo mais do que eu próprio – era em mim que se refugiava, a maciez de seu peito contrastava com a aspereza de sua barba, sempre por fazer. Nas poucas vezes em que dividimos um sono tranquilo, ao apalpar minhas costelas, a seguinte constatação se repetiu: estás sumindo. E, de fato, estava, mas, na época, achava que o tempo não podia ser desperdiçado com preocupações tolas, tais como comida, algo que deixaria meu corpo de maneira nem um pouco nobre.
Meu sono, grande parte das vezes, era interrompido pelo tilintar das moedas que ele contava para o primeiro cigarro do dia, outras vezes chegava tropeçando nos próprios pés, após uma noitada. Eu fingia dormir quando ele abria a porta, ele então a fechava com delicadeza e ia dormir no sofá onde, por vezes, desejei que ele encontrasse meu paletó esvaziado de mim, dando por concretizada sua profecia, meu sumiço.
Ante a impossibilidade de quebrar o que sentíamos, o que estupidamente insistia em nos manter juntos, quebrávamos pratos, ateávamos fogo as cortinas. Era comum que, mesmo nas tréguas, cacos de vidro, esquecidos pelos tapetes, nos furassem os pés. Eu quebrava suas câmeras e prêmios, ele arranhava meus discos, os arremessava pela janela como se fossem frisbees, chutava meus cavaletes, esvaziava minhas tintas na privada. Depois misturávamos e bebíamos nossas lágrimas e sangue, quando havia.  Nos amávamos com brutalidade e em seguida fugíamos assustados. Nos internávamos, tentávamos convencer os médicos de nossa suposta loucura incurável, mas eles só faziam atestar nossa sanidade e constatar que já havíamos ultrapassado a faixa etária em que se pode ignorar o sono, viver de sanduíches e pouquíssimos banhos.
Decidimos abrir mão do papel de pedra no caminho que, na época, concordamos desempenhar com desenvoltura um para o outro. Esvaziamos a casa, reparamos minimamente os danos e demos uma festa na qual, coincidentemente, calhamos de nos refugiar no banheiro. Sentados na banheira, enquanto Sinatra cantava they can’t take that away from me, só conseguíamos gargalhar enquanto lágrimas nos enchiam os olhos e escorriam por nossos rostos. Antes de se levantar, ele segurou minha nuca e disse o que ainda hoje reverbera em meus tímpanos: “não digo que você é o amor da minha vida porque esse sempre foi a incoerência.” Fiquei ali por mais algum tempo, observando o vazio que ele deixara e pensando que desgraçado.
Os anos, indiferentes, passaram. Na maioria deles, estive em companhias agradáveis, que deixariam marcas irreversíveis em muitos corações, mas o meu atravessou o tempo solitário com sua única rachadura de estimação. Contrária sua presença, sua ausência era dócil, de nada reclamava e a todos os lugares me acompanhava. Tentei afoga-la no mar, dissolvê-la na chuva, intoxica-la em porres, abandoná-la em jaulas de animais sanguinários no zoológico, mas nada disso funcionou.  A impossibilidade de reproduzir através das tintas o movimento de seu riso, que nascia no canto direito de sua boca e às vezes tomava todo seu rosto, outras não, fez com que eu perdesse por elas todo o interesse.
O mundo era muito quieto sem ele por perto, sem suas lentes, tripés improvisados, roteiros em guardanapos e aquela ânsia de capturar sequências memoráveis. Por vezes eu acordava pensando estar livre, contente, dava por finito esse amor, que me dardeja o peito nas horas mais banais do dia.
Lembrar sua inabilidade em encontrar meias pares, a curvatura de suas omoplatas, seu rosto iluminado pela primeira luz do dia ou a forma como fazia guitarras e microfones das vassouras, me promovia a plateia e, desafinadamente, entoava um repertório de estação-de-rádio-de-motel, muitas vezes estampou em meu rosto sorrisos pouco ou nada condizentes com as circunstâncias em que me encontrava, como as filas de banco, o trânsito de seis da tarde e as conversas de elevador.
Enquanto tomava o desjejum, no aeroporto Antônio Carlos Jobim, pensava nos atores desmemoriados com os quais estaria lidando, nos pratos exóticos, oferecidos em cardápios intraduzíveis em inimagináveis lugares do globo, que estaria comendo, quando nos reencontramos. Seus cabelos já não eram uma aureola playground de ventos. Nos olhávamos enquanto nossas bocas expulsavam frases, que falhavam ao tentar fazer sentido. Por fim, nos calamos. Deixamos que, num abraço, nossos corações batessem em descompasso, como dois boxeadores, como há muito haviam feito. Um beijo nos esgotou o fôlego, que reservei como um mergulhador para aquele momento, que já desacreditara que aconteceria. Nos interrompíamos, nos afastávamos para assegurar aos olhos a realidade de nossas presenças.
Já é quase hora do almoço, começo a pensar que hoje ele talvez não venha. Lastimo não ter lhe dito que, para mim, sua beleza independe de ângulos, que, apesar de minha eloquência raramente ter coincidido com seus inquéritos, as malas para New Orleans nunca foram desfeitas, que entendo pouco de etimologia, mas suspeito que o adjetivo fantástico originou-se de seu traseiro.
Ele traz em suas roupas gotículas da primeira chuva de Setembro, resmunga algo sobre o preço dos selos, seu pedido chega sem precisar ser feito: pingado com pouco leite. Não disfarço minha irritação, ele hesita antes de iniciar um monólogo, que não dura, beberica seu pingado e me olha apreensivo. Sustento o olhar até que ele começa a fazer caretas, se põe vesgo, me mostra a língua...Desvio os olhos, ele acende um cigarro, furto uma olhadela de seu rosto, próximo ao fogo, quase um Prometeu. Estou certo de que o café não é responsável pelo aceleramento em minha corrente sanguínea. Ele diz meu nome, mas não atendo.

Ele me abraça. É alivio, o que sinto. Amanhã chego na hora. Deixemos de coisa, sim? Diz ele, antes de encostar seus lábios nos meus. Esses encontros antes dos dias me permitem sobreviver aos mesmos. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre cartas inutilmente entregues e estupidamente lidas

i was going to write you a poem
but then it didn’t.


          Esses discos dos talking heads me impediram de burlar o excesso de literatura que contamina minhas veias, afinal se estamos mesmo nessa estrada para lugar nenhum ou para esse fatídico lugar específico, por que não oferecer companhia pro samba na lama, o flerte com vira-latas, o depósito de esperança em crianças sujas - essas que chutam bolas improvisadas, soltam sacos plásticos e lhes apelidam pipas- o desbravamento de ruas desconhecidas, a coleção de nuvens e a escalada de ladeiras? Antes que pudesse falar sobre as longas férias que meu sono vai tirar, que, além da companhia, não sobra muito para oferecer além de metáforas ruins e histórias mixurucas, lembrei que depois de tudo nalgum copo sujo, um senhor de bigodes lembrará, nostálgico, a escalação dum time do qual costumava ser o técnico, não fosse o joelho lesionado de Clayton, teriam levado a taça. Foi por pouco, ele dirá. Atrás do balcão, outro, entre uma dose e outra, pensará em vender seu chevette, voltar pra sua terra e reencontrar seu amor de infância. Os vira- latas seguirão esperançosos em suas pechinchas. E, como Lou R. faz o favor de ressaltar: o sol continuará inundando essa bola azul de radiação e luz. Ainda que eu não dê a mínima e insista na busca por algo que consiga transformar os estilhaços em algo inteiro, que não pese muito na caixa torácica. Ainda assim, teço essas palavras, violões de uma corda só, autistas diante de plateias, meias sem pares.  Porque sei que tudo ficaria melhor na sua companhia.  Como um senhor cansado, que sonha com a limonada servida cinco quarteirões adiante. Ele revira seus bolsos a procura de moedas para pegar o próximo ônibus, ainda não é velho o suficiente para andar de graça, rumo a limonada, mas os descobre furados e órfãos de moedas. Sonha ser um menino e abater a distância com suas pernas.  Acomoda-se num banco de praça, mascara a esperança de ganhar uma carona, encontrar dinheiro no chão, com uma falsa resignação. Assim como finjo não querer que essa carta te deixe ruminando por horas, dias, meses.  Apesar de não ter muito a oferecer, te daria o mundo numa colher de sobremesa, se pudesse.  Você é melhor que o “play it fucking loud” que Dylan diz pra banda depois de ser chamado de Judas e antes de entoar like a rolling stone. Talvez para você isso não signifique nem sirva pra nada, mas transforma meus olhos em telescópio, veem constelações cometas nebulosas - o que explica os tropeços, a falta de calma dentro dos olhos, o desassossego das mãos. Transforma também todas as janelas em molduras impressionistas, todas as poças d’água em atalhos para o oceano, todo mendigo em príncipe, todo batuque em samba.

         O que importa saber é que apesar do desacordo entre calendários e caminhos, você sempre terá um bolso em meus casacos, um sorriso no canto dos lábios, uma memória a deixar o peito raso e os olhos longes.  Como esses nomes escritos por ex-habitantes em rodapés ou dentro de armários embutidos, que ficam mesmo depois que eles partem.  

(Setembro de 2013)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sobreviventes

Atrás do balcão, o detergente de maçã que uso para lavar os copos, alivia minhas narinas dos odores hostis, exaltados pelo hiperbólico sol do meio dia. Cansado dos olhares que tentavam lhe convencer a correr, o relógio da parede lançou-se fatalmente ao chão. Diferente de meus colegas, não cai no placebo de acreditar que carrego o tempo no pulso, afinal ele é quem nos carrega, mas hoje procuro me inteirar, pois reencontrarei Sánchez.
                Não está atrasado, mas caminha apressado. O vento brinca com seus cabelos, ainda amassados. O cheiro de cigarro de suas roupas me remete a estreita quitinete, que tive a oportunidade de conhecer em sua última tentativa de descansar do pranto que há muito nos acompanha, de cinzeiros lotados e cortinas improvisadas, em que vive. Tentativa que nos fez decidir por esses encontros periódicos.
A casa em que viviam cheirava a erva cidreira e cigarro de palha, cheiros que nunca mais consegui desvencilhar de tal lembrança. Não me lembro de como eram os cômodos pelos quais Benjamin me guiou pela mão até chegarmos ao quintal onde, pela primeira vez, vi seu rosto, o que fez de minha caixa torácica um lugar apertado para o órgão que começou a golpeá-la insistentemente. Exercício repetido agora com a mesma intensidade.
Das histórias que ouvira, não havia bravata ou derrota que não tivesse participado.  Suas palavras, até as mais estúpidas, vinham até mim como estilhaços do paraíso, seus olhos dardejavam os meus que, temerosos, fugiam. Fuga que falava por si e dizia o que eu escondia – e por isso sentia ainda mais – era por ele que cantavam os freios de minha bicicleta nas madrugadas em que saíamos para alargar limites, jogar panfletos mimeografados nos portões das fábricas e pichar mensagens em muros. Era ele um dos líderes do grupo, um dos poucos que sabia engatilhar um arma. Era ele quem providenciaria nossa ida para o campo, onde engordaríamos reforços e, segundo antigas cartilhas, nos tornaríamos verdadeiros guerrilheiros.
Minha boca estranha o contato com sua pele, salgada de suor. Como de costume, trouxe a caderneta. Observo suas mãos, inquietas, mãos de pianistas que preferiram a acústica de um violão herdado, brincarem com a esferográfica. Mãos nas quais ciganas sempre me veriam, mãos que segurariam as minhas nas ruas do mundo, mãos que não vão me escrever cartas, bilhetes que justificam ausências ou tampouco listas de supermercado, mãos que eu poderia agora mesmo, numa forjada distração, confundir com uma colher ou com o açucareiro.
É um lugar dos velhos tempos, pouco modificado. Da mesa que ocupamos, sombreada por um plátano, vejo antigos rabiscos e marcas de cola, que costumávamos fabricar, que a tinta não consegue esconder das paredes. O garçom que nos atende é um velho conhecido, nos cumprimenta polidamente, pedimos um suco, o primeiro que nos salta aos olhos: acerola. Ele atesta que nos reconhece trazendo três copos. Somos tomados pelo vazio do terceiro. Agora vai pensar que Benjamin nos deixou esperando e quem pode culpa-lo? Logo perceberá que fomos subtraídos. A imposição desta ausência nos assola, nos faz negar os dentes aos espelhos, o sono aos travesseiros. Enquanto enche nossos copos, talvez pense ter se enganado, mas eu o salvaria da dúvida e lhe diria sim, foram eles que juntos aprenderam que a história, antes de ir para os livros, acontece fora deles. Importaram a música dos trilhos para vitrola, foram eles que doaram as retinas aos velhos filósofos alemães, atravessaram estados, extinguiram de muitos botequins a cerveja, em estádios presenciaram inacreditáveis dribles, driblaram os bolsos vazios.
Fazia calor é o que, por mais que tente, não me esqueço. Acreditávamos que o domingo seria, como todos os outros, um marasmo, o que nos permitiria uma viagem para o local de nossa futura base, um sítio abandonado num distrito claustrofóbico. Viagem que nos impediu de salvar o menino que cresceu aos seus descuidos, que, depois de ser entregue ao chão, pelos braços cansados de sua mãe, tornou-se seu companheiro, o menino que ele instruiu a voar bem alto.
Assustei-me quando ele apareceu sozinho para me buscar. Benjamin amanhecera febril e indisposto, justificou-se. No casebre, quando não restou canto que nossos olhos não haviam inspecionado, nossos corpos se entenderam sem o auxílio de palavras. Esse mesmo corpo que hoje me é tão estranho e coleciona tentativas de livrar-se dessa insuportável conviva chamada culpa. Sua mãe, como soubemos mais tarde, não encontrou consolo no “daqui a pouco chega” dito por seu pai, entretido com o futebol, que era narrado aos seus ouvidos pelo radinho de pilha.
                A frase que sequestra o silêncio não é inédita, o mesmo “não tinha que ter saído” que, quando dito pela primeira vez, foi seguido por um soco na parede. Ambos sabemos que um resfriado não o seguraria em casa. Se ao menos tivesse nos alcançado, nos surpreendido, mas confiava em nós, que só recebemos o decreto, o fim, nem seu corpo nos devolveram. Buscamos, pagamos por informações, nem sempre verdadeiras, vimos dilacerados tantos outros corpos pela mesma sina. Em vão, nos agarramos aos rastros e a tudo que deixara, como boias salva vidas inutilmente disputadas por vítimas de um naufrágio. Minhas duas incompletas décadas de vida eram pequenas para aquela viuvez. Estávamos prontos para luta, pro luto não.
Coragem tivesse, lhe falaria sobre o dedutível, o que fizeram tantos outros em outros tempos e espaços. Lhe diria que o menino, que nos deixou poemas a serem musicados em cadernos espirais, tentava convencer o tempo, conquistar ouvidos. E o tempo se contorce, assistindo a essa repetição incessante. Uivos que tentam lhe convencer de que “desta vez não, meu caro”. O tempo se intriga, afinal o que é que carrega que faz com que toda essa gente pense que “desta vez não, meu caro.”? Mas o que é afinal, que faz com que um sempre negue os ouvidos ao outro e que os detentores da vista panorâmica a ignorem? O tempo, sem respostas, corre. Algumas coisas lhe escapam dos bolsos, outras grudam em seus sapatos. Isso deveria nos consolar, saber que nem mesmo o tempo consegue se livrar da esperança que o perpassa.
Apesar dessa incessante espera, que há anos atravessamos, tenho a impressão de que hoje não veremos, com espanto, o amadurecimento de seus traços, não afastaremos seus cabelos desgrenhados dos olhos para lhe convencer que remediaremos todas as dores ou tampouco encostaremos o ouvido no lado esquerdo de seu peito para contar as batidas de seu coração, constatar que ainda bate e que continuará a fazê-lo enquanto estivermos por perto. Tantas foram as vezes em que tentei trazê-lo de volta, eu lhe prometia atravessar estados de joelhos, oceanos a nado. Eu lhe dizia apenas por um minuto, Benjamin. Um suspiro ou até mesmo uma careta, fazia tantas em frente ao espelho. Ainda hoje, ele permanece irredutível às minhas tentativas de suborno, convites e promessas. Como dói pensar que ele talvez nunca mais sopre a gaita nas horas impróprias, durma, de boca aberta, ao meu lado, vibre com o futebol ou cante no chuveiro. 
O garçom recolhe os copos, percebo que ele também tem a feição típica dos sobreviventes, algum desavisado também lhe atribuiria dez anos a mais aos que realmente possui, as palavras teríamos conseguido provavelmente já foram balbuciadas por sua boca.  Talvez, naquele domingo, tenha caminhado ao lado de Benjamin e de todos aqueles que acreditavam que o mundo lhes pertencia, que sairiam vitoriosos. Minha garganta continua seca.

Ele se despede. Para não agravar o previsto desabamento, não me levanto. Tenho vontade de sentir seus ossos num abraço, de tomar seu rosto e dividir com ele um choro entrecortado por soluços, que já me escalam a garganta, receber de seus olhos as lágrimas, deixar que escorram também por meu rosto, deixar que escorram até cessar, até que só nos reste o habitual desalento.  Reconfortá-lo com mentiras, lhe dizer que ele nos perdoaria, que, para o resgate da monotonia, nem tudo ficará bem, mas que nossos problemas e dores diminuirão. Estendo a mão, recebo um aperto frouxo, assisto suas costas dobrarem a esquina.